Há uma zona em guerra aberta com o Governo de Nicolás Maduro: é uma zona remota da Venezuela, ocupando uma grande área perto da fronteira com o Brasil e a Guiana, onde vivem os índios pemones. Depois de um ataque há quase um mês que deixou um jovem pemón morto, os pemones capturaram alguns dos atacantes, e mantêm-nos presos enquanto negoceiam com os militares venezuelanos.
 
Na última ronda de conversações, relatada pela BBC, um líder indígena, José Luis Galletti, diz que irão devolver as armas apreendidas junto com os capturados, três elementos dos serviços secretos militares da Venezuela. Segundo o Presidente, Nicolás Maduro, estes foram enviados como parte de uma operação de "combate contra a mineração ilegal, que causou um dano terrível ao Parque Nacional de Canaima". O ministro da Defesa chegou a dizer que a operação fora concertada com os líderes indígenas locais. Estes negaram.
 
Um enviado da emissora britânica BBC, Guillermo D. Olmo, visitou a região – tão remota que foram precisos dois dias de viagem, “quase 1,3 mil km de buracos, pneus estourados e barreiras policiais” a partir de Caracas. Foi recebido com uma enorme desconfiança pelos líderes indígenas, num ambiente de tensão.
 
“Aqui, o governo somos nós”, disse um dos homens armados com arco e flecha que tomaram o controlo do pequeno aeroporto de Santa Elena de Uarién, no Sul do país. O jornalista rapidamente percebeu que assim era quando, desconfiando de quem ele seria e porque estaria ali, os homens armados não queriam inicialmente deixar a equipa da BBC sair.
 
Os líderes indígenas esperavam um representante do Governo para negociar a libertação dos militares das forças venezuelanas que integravam a equipa de 14 elementos que atacaram Charlie Peñaloza Rivas, de 21 anos, matando-o, e que deixaram feridos o seu irmão e outro homem. Estes estão num hospital rodeado de forças de segurança.
 
A Amnistia Internacional criticou a operação dos militares, “que não tem qualquer justificação”, e apelou à protecção das terras indígenas contra a exploração mineira.
 
Em tempo de crise aguda na Venezuela, todos vêem nesta exploração de minas de ouro uma maneira de ter algum dinheiro para comida ou medicamentos, o que cada vez é mais raro: pessoas que tentam chegar ao local para explorar as minas e os próprios índios, que procuram rendimento alternativo ao que obtinham do turismo. Depois da chegada de Maduro ao poder, dizem, o número de turistas, que vinham ver locais como a cascata de Salto Álgel, a maior do mundo, com 979 metros de queda de água, diminuiu abruptamente.
 
O repórter da BBC ouviu uma jornalista de viagens Valentina Quintero criticar a exploração mineira pelos índios: "Eles deveriam ser os garantes da vida no Parque Nacional. Causa muita surpresa quando eles, que são os habitantes originais, vão contra os seus costumes e começaram a trabalhar com a mineração."
 
Mas o mineiro Jesús Fernandez, que trabalha em embarcações que asseguram de que os mineiros, que trabalham horas e horas debaixo de água, têm oxigénio suficiente, responde de modo muito simples: "Sabemos que o trabalho na mina danifica a natureza. Mas não vamos morrer de fome".
 
O Governo criou em 2016 o megaprojecto Arco Mineiro do Orinoco, uma enorme zona para exploração de recursos minerais perto, e tem um plano de protecção para as terras indígenas. Os líderes indígenas dizem que este projecto é hipócrita, pois é ao Governo que vendem o ouro, e que o plano de protecção tem apenas como objectivo que sejam as autoridades a controlar o terreno e assim apropriarem-se das minas.
 

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