Jimmy McRea: O silenciamento de uma luta territorial do povo Rama da Nicaragua | Land Portal | Securing Land Rights Through Open Data
Jimmy McRea Billis 1968 – 2012.
 
Por Berta Marson
 
Jimmy McRea foi morto no meio da selva que cobre o território do povo Rama da Nicaragua. Naquela época, Jimmy era o vice-presidente da comunidade de Bangkukuk Taik, localizada na costa caribe sul do país. Até hoje, sua morte não foi esclarecida, investigada ou divulgada na mídia nacional e internacional, que enfatize o assassinato desse líder indígena que lutou pelo território de seu povo.
 
Depois de um día de trabalho na floresta, foi à procura de sua família, quando foi interceptado por sete homens que o cercaram com facões. Antes do assassinato, o líder procurou os invasores para conversar sobre a sua presença no território. Ele foi assassinado em 20 de abril de 2012 e sepultado pela sua família e comunidade. Um de seus irmãos lembra que a polícia chegou e pousou em uma pequena ilha na costa que pertence ao território de Bangkukuk. A polícia não chegou em terra forçando os parentes de Jimmy a navegar até a ilha para denunciar o crime. Desapareceram após o rápido registro dos fatos e, sobre a morte deste líder, as autoridades nunca mais se pronunciaram.
 
Sua família o descreve como um homem alegre, respeitoso e comprometido com as causas de seu povo. Por várias décadas, o povo Rama tem sido invadido pelo que chamam de espanhóis ou colonos. Estas populações são camponeses e camponesas das áreas rurais do Pacífico da Nicaragua que pertencem à região do país conquistada pela Espanha. Os colonos invadem com agressividade e violência, territórios indígenas nicaraguenses, gerando desmatamento e caça massiva de animais da florestas e dos rios. Se, por um lado, estas populações fogem da pobreza do Pacífico em busca de terras para a agricultura, por outro, elas confrontam as populações indígenas na apropriação de seu território de forma violenta, onde muitos desses episódios terminam em assassinatos que ficam impunes, como o caso de Jimmy McRea.
 
A invasão de colonos armados deixou um saldo de muitas vidas perdidas como resultado de assassinatos perpetrados contra homens e mulheres de diferentes povos indígenas ao longo da Costa Caribe Norte e Sul da Nicaragua. Ao contrário dos povos indígenas desta região do país, os colonos realizam atividades que geram desmatamento nas áreas de selva para realizar atividades como agricultura e pecuária. Os chamados invasores realizam uma prática de pesca massiva nos rios dos territórios originários, gerando impactos devastadores nas comunidades e na segurança alimentar desses povos. Como menciona um homem Rama:
 
Desde que os colonos chegaram aqui 15 anos atrás, ou provavelmente 16 ou 17 anos atrás, eles vieram cortando toda a madeira, derrubando a floresta e matando todas as espécies de animais selvagens. Hoje, estão invadindo todas nossas terras. Nosso povo já não tem mais terra onde trabalhar. Tem muitas crianças nascendo, e como eu disse, o que é que essas crianças vão fazer? Estas crianças sequer conhecem as distintas espécies de animais que existiam aqui antes dos colonos chegarem. Como os anciãos falavam, nós éramos ricos porque tínhamos muito animais selvagens na floresta e hoje as crianças as vezes não conseguem ver nem um peixe porque os espanhóis estão matando os peixes e os animais. Eles colocam veneno nos rios para pegar os peixes (Homem Rama, 2019. Tradução nossa)
 
Berta Marson
Cerca de madeira colocada por colonos em território Rama. De um lado da cerca observa-se a preservação da floresta por parte do povo Rama, do outro o desmatamento provocado pelos colonos. Foto: B.M. 2019
 
Assim como o caso de Jimmy McRea do povo Rama, também se documenta a morte do líder da Nação Mayagna Elías Charles Taylor, assassinado na Reserva da Biosfera de Bosawas, enquanto tentava evitar o desmatamento causado por invasores. Dentro da própria população Rama, o APIAN (Aliança de Povos Indígenas e Afrodescendentes da Nicaragua) relata as agressões físicas contra indígenas Rama de TikTik Kaanu e a queima de casas em Sumukaat, povoados Rama da região, cujas denúncias foram feitas para autoridades correspondentes sem obter nenhum resultado diante das acusações de violência (APIAN, 2017; ACOSTA, 2018). 
 
O povo Rama da Nicaragua pertence à matriz cultural Chibcha. Há uma divisão cultural no país entre os povos indígenas pertencentes a esta matriz, que inclui a região caribenha nicaraguense, e os mesoamericanos, localizados na região do Pacífico. As práticas do povo Rama baseiam-se no calendário lunar, onde a madeira é colhida e cortada, por exemplo, durante a lua cheia. Este povo habita territórios com distintas características geográficas e existem 6 centros populacionais Rama - Tiktik Kaanu, Indian River, Rama Cay, Sumukaat, Wiring Cay e Bangkukuk Taik - que, juntamente com três territórios crioulos (descendentes de africanos) - Monkey Point, Graytown e Corn River - conformam o GTRK (Governo Territorial Rama e Kriol).
 
Berta Marson
Desmatamento provocado por colonos. Foto: B.M. 2019
 
As separações geográficas e culturais levaram a uma divisão interna na Nicaragua e centralizaram o país tanto nas áreas urbanas do Pacífico, quanto na sua capital, Managua. A antropóloga Florence Babb (2001) dedica um capítulo a essa centralização em seu livro After the Revolution. No capítulo Managua is Nicaragua, Babb discute essa centralização perigosa, enquanto a geógrafa Doreen Massey (1987) em seu livro, Nicaragua, também discute as consequências dessa centralização na compreensão da complexidade do território nacional.
 
A Nicaragua não é somente mestiça, pois nas faces deste país se desenham as  dos e das Ulwas, Sumu-Mayagna, Ramas, Chorotega-Nahua-Mangue, Cacaopera, Nahoa, Ocanxiu-Xiu-Sutiaba, Miskitu, Garifunas, Crioulos, entre outros povos que habitam territórios ancestrais que, até hoje, estão em perigo (APIAN, 2017; ACOSTA, 2018). O perigo do imaginário da não-existência e o mito da Nicaragua mestiça colocam essas populações à margem do silenciamento, tanto da violência secular, como a que ocorre hoje em dia voltada para a usurpação de seus territórios.
 
Na América Latina e no mundo, as mortes, assim como os territórios, pertencem a uma escala de valores em que os povos indígenas ainda estão localizados no que María Lugones (2011) coloca como não-humano. O conceito da não-humanidade habita as sociedades coloniais que hoje ocupam os espaços das áreas urbanas vestidas de "modernidade", "progresso" e "desenvolvimento". Como coloca Lugones:
 
Só os colonizadores eram homens e mulheres. Os povos indígenas das Américas e os africanos escravizados se classificavam como não humanos na sua espécie – como animais, incontrolavelmente sexuais e selvagens. O homem moderno, europeu, burguês, colonial se tornou em sujeito/agente, apto para governar, para a vida pública, um ser civilizado, heterossexual, cristão, um ser de mente e de razão. A mulher europeia burguesa não era entendida como seu complemento, senão como alguém que reproduzia a raça e o capital mediante a sua pureza sexual, sua passividade e seu vínculo ao lar a serviço do homem branco europeu burguês (LUGONES 2011, p. 106, tradução nossa).
 
Nesse sentido, o território da floresta onde o urbano realiza uma leitura do que é entendido como "primitivo" é o lugar onde vivem alguns povos silenciados, ou o imaginário do não habitado. Isso pode ser observado na ausência do povo Rama dos mapas políticos da Nicaragua, onde uma grande massa verde de floresta é mostrada sugerindo um vasto território desabitado.
 
O território possui um valor dentro de uma escala social. Este valor pode ser transferido para as pessoas que habitam determinados espaços onde é permitido e até normalizado ações nos territórios que recebem um valor inferior. Dentro dessa hierarquia existem territórios que carecem de valor onde a vida, ou a morte, passa despercebida pelas grandes massas nas esferas local, nacional e internacional, gerando uma perversa corrente de indiferença, silêncio e esquecimento. Os assassinatos e violações de direitos humanos a homens e mulheres nas áreas de selva, principalmente aqueles perpetuados aos defensores e defensoras do território, são ações que são permitidas e ignoradas devido à leitura simbólica que é realizada sobre estes espaços.
 
A comunidade de Bangkukuk Taik, onde Jimmy McRea foi vice-presidente, apresenta uma distância geográfica dos aparatos legais para relatar uma morte devido ao seu difícil acesso. Da mesma forma, há uma distância política em termos de acesso a recursos e formas de reclamação disponíveis para este e outros povos. Como poderíamos denunciar uma morte em lugares onde o imaginário e o próprio colonialismo interno reconhece como desabitado? Para o geógrafo brasileiro Milton Santos: “Estar na periferia significa dispor de menos meios efetivos para atingir as fontes e os agentes do poder, dos quais se está mal ou insuficientemente informado” (SANTOS, 2011, p. 173). A morte de Jimmy McRea dá à sociedade nicaragüense uma ferramenta profunda de reflexão sobre a fragmentação territorial e cultural que deveria ser reconhecida quando se decide pensar em um país tão ferido por ditaduras e guerras.
 
Na atualidade, a Nicaragua atravessa uma profunda crise política que deixou centenas de mortes em várias regiões do país, e muitas pessoas presas em busca de seu direito legitimo de protestar. Mortes e abusos podem ser vistos em diferentes camadas sociais, onde pessoas com menos recursos sofrem as consequências mais trágicas do abuso de poder e da violência. No entanto, essa crise entre os setores da sociedade civil nicaraguense e o atual governo não começa em abril de 2018, uma vez que tanto o atual governo, quanto outros governos agiram com violência e repressão nos territórios originários do país.
 
Este é um momento importante para realizar um processo de reflexão onde a impunidade de mortes não seja permitida na Nicaragua para que estas não caiam no abismo da inexistência. Os distintos povos e nações indígenas do país estiveram, durante séculos, na indiferença e negligência das populações do Pacífico, anteriormente ameaçados pelos processos de colonização, hoje vítimas de empresas extrativistas e colonos. Hoje, o povo Rama de Bangkukuk Taik habita cerca de 10% de seu território ancestral e 90% está sob a ocupação de colonos que criam um perigoso desmatamento da floresta tropical nacional.
 
Há uma maneira diferente de viver e ocupar o espaço destas comunidades daqueles colocados como os modelos espaciais e urbanos que pertencem à leitura do "civilizado", mas que destroem os territórios de floresta e colocam o planeta e seus recursos em sério risco. Estes modelos, próprios de áreas urbanas e mesmo de algúns setores rurais, têm destruído recursos naturais e a biodiversidade da terra. Seria a observação e o respeito à relação desses povos com a natureza uma lição a ser aprendida diante dos modelos que levaram a uma grave crise ambiental global. A resistência do povo Rama é pacífica, pois eles e elas não utilizam a violência dentro de sua luta territorial; no entanto, eles e elas persistem no direito de preservar sua cultura e sua relação com a natureza. Diante da indiferença da vida dos povos indígenas da Nicaragua, nos juntamos ao clamor dos povos brasileiros que clamam: sangue indígena, nenhuma gota a mais.
 
Na atualidade o povo Rama tem mais um desafio na preservação da floresta e sua luta territorial: O projeto de Gran Canal Interoceânico da Nicaragua.
 
 
 
Referências Bibliográficas
 
ACOSTA, María Luisa. Los Pueblos Indígenas y Afrodescendientes y la crisis sociopolítica de Nicaragua. Revista Amazonas. 22 de Abril de 2019. https://www.revistaamazonas.com/2019/04/22/los-pueblos-indigenas-y-afrod...
 
APIAN. Alianza de Pueblos Indígenas y Afrodescendientes de Nicaragua. Informe sobre la Situación de los Derechos Territoriales de los Pueblos Indígenas y Afrodescendientes de Nicaragua. Diciembre, 2017.
 
BABB, Florence. After the revolution: mapping gender and cultural politics in neoliberal Nicaragua. University of Texas Press, 2001.
 
LUGONES, Maria. Hacia un feminismo descolonial. Revista Hipathya, Vol.25, n.4. Otoño, 2010.
 
MASSEY, Doreen. Nicaragua: some urban and regional issues in a society in transition. – Contemporary Issues in social sciences. Open University Press, 1987.
 
SANTOS, Milton. O espaço da cidadania e outrasreflexões / Milton Santos; organizadoporElisiane da Silva; Gervásio Rodrigo Neves; Liana Bach Martins. – Porto Alegre: Fundação Ulysses Guimarães, 2011.
 
 
 
 

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