Resistência dos povos Indígenas no enfrentamento do vírus sistemático e o vírus do Covid-19 no contexto da Pandemia | Land Portal
Os povos indigenas representamos em torno de cinco por cento da população da humanidade, porém, preservamos em torno de oitenta e dois por cento da biodiversidade do mundo. Temos um papel muito importante para pensar a sustentação da vida do planeta e essa responsabilidade tem recaído sobre nós. Acreditamos que se fazemos exatamente com nosso modo de vida a proteção de toda a humanidade, é importante também que a humanidade garanta a vida de nossos povos partindo do território. Quando morre o território, acontecem duas mortes, a dele e a da nossa identidade, pois permanece o corpo vivo, mas a tradição morre. Uma sociedade sem povos indígenas vai conhecer as consequências das mudanças climáticas. Vai sentir febre, mas não terá o remédio da cura. Pensar a preservação do cerrado,  da sócio-biodiversidade é pensar em ser guardião para a cura do planeta.
 
As parteiras para mim são as primeiras doutoras, mas hoje existe um grande impacto porque as mulheres estão indo para o hospital e isso tem criado consequências nos corpos de mulheres Xakriabá. Elas têm adoecido muito, pois o cuidado que recebiam das parteiras era diferente. Muitas fatalidades tem acontecido devido a ausência do cuidado e resguardo das parteiras. Elas se encarregam de cuidar da gestação, do parto e do resguardo pós parto. O útero das mulheres Xacriabá também tem adoecido por conta da mudança na alimentação. Depois do ano 2002, com a chegada da energia elétrica e os alimentos com altas quantidades de hormônio, o útero de nossas mulheres adoeceu. Assim como a terra adoece, o útero das mulheres também, pois nós temos essa conexão dessa parte do nosso corpo com a terra. Por esta razão as parteiras Xacriabá são importantes, pois elas observam as mulheres que terão dificuldade em ter filhos, se o parto vai ser difícil, se a criança vai nascer de parto normal ou se será necessário praticar uma cesariana. É um conhecimento que ultrapassa exatamente esse nosso modo de pensar, esse lugar do aprender, porque é uma coisa que nasce com elas. As parteiras não se tornam aquilo, elas nascem com esses conhecimentos, assim como acontece com o nascer da ciência de um pajé.  
 
Meu maior sonho é poder dormir, continuar viva, porque certamente esse é o nosso maior presente.  Quando negam o território, sequestram parte do nosso sonho e também matam nossa morada coletiva. Negando o território, mesmo que permaneçamos vivas, morre uma parte do nosso corpo. Para nós o território é galho, é sagrado, é o outro, é semente. O território é memória ancestral. É ser bicho, ser gente, porque só sabe ser gente aquele que sabe ser bicho, árvore, útero, semente. É ser ciência, enxergar além, atravessar as mentes, mas sobretudo atravessar os corações.
 
Nós povos indígenas somos o que a colonização não conseguiu matar e o que a mineração não conseguiu contaminar. O cerrado e nós somos o que a soja não conseguiu envenenar. Nós e o cerrado indígena permanecemos firmes porque resistimos a monoculturação. Somos aquilo que a cada vez que tentaram nos enterrar, nossos galhos foram fortes, mas sobretudo nossas raízes foram profundas e por isso não conseguem enterrar os povos indígenas, porque somos cerrado, somos resistentes e mesmo o fogo que queima o cerrado historicamente para a expansão agrícola jamais vai conseguir queimar a força da nossa ancestralidade.
 
Quando a APIB (Articulação de Povos Indígenas do Brasil) já tinha publicado uma nota cobrando uma ação do governo frente a este momento que estamos vivenciando, nós povos indígenas já estávamos dentro de uma luta contra a municipalização da saúde indígena desde o ano passado. Uma das primeiras medidas do atual governo, além da transferência dos processos de demarcação do território e da Funai para o ministério da agricultura, foi a ameaça da municipalização da saúde indígena, que retira a responsabilidade de um órgão específico, a SESAI (Secretaria Especial de Saúde Indígena) , e direciona este assunto para os municípios que não conseguem dar conta do problema e estão diretamente relacionados com os conflitos territoriais. A SESAI foi criada por um processo amplo de consulta e nesse momento da pandemia esta ameaça é muito séria pois os povos indígenas não estão sendo pautados nas medidas do governo. 
 
As populações indígenas inicialmente reagiram com medo frente a esta situação. Sabemos que ainda não existe cura para este vírus, mas existe uma sensibilidade humanitária e de solidariedade. Porém, esta solidariedade não pode ser seletiva. Quando falamos da importância de ficar em casa, as pessoas não entenderam que esta sempre foi nossa luta, a de garantir a nossa permanência em nossa casa, de ficar na aldeia. A realidade retrata que quando muitos povos queriam ficar em seu território, o estado brasileiro tentava saquear suas casas. Desta forma, muitas aldeias vivem sob ameaça, tentando enfrentar simultaneamente a pandemia e os conflitos territoriais. As lideranças têm estabelecido medidas de monitoramento fechando os territórios, mas durante o período da noite nós não temos controle de quem entra e sai do território. 
 
Para a população brasileira este momento de crise respiratória viral pode ser uma novidade, para o mundo isto pode ser novo, mas para nós, povos indígenas, não. Esta história já a conhecemos, pois temos sido vítimas de extermínios em massa, de epidemias e também de crises virais. A gripe, o sarampo ou a comida contaminada tem representado extermínios em massa para nossos povos. O Brasil e o mundo não acabaram na sua totalidade, mas esta pandemia representa para nós uma ameaça real. O pensar coletivamente no combate à pandemia pode ser uma novidade para o mundo, mas para nós não é. Para nós tem representado um desafio pois por viver de forma coletiva, de repente somos restritos a nossas práticas de convivência coletiva, de compartilhar objetos e utensílios, assim como a alimentação que é passada de mão em mão. 
 
Nós, povos indígenas, também não fazemos parte das estatísticas. Quando se fala dos índices de mortalidade, de assassinatos ou mortalidade infantil, as pessoas falam: 'vai virando estatística'. A maioria das vezes as mortes indígenas  nem sequer entram nas estáticas pela falta de visibilidade de nossos territórios. No ano passado, em Minas Gerais, morreram quatro crianças por registro de óbito de diarreia. Nesse sentido, é inimaginável a gente pensar que também tem muitas crianças que morrem por desnutrição. A gravidez não é uma doença, mas muitas mulheres indígenas têm complicações no parto, algumas perdem o bebe, outras tem complicações em consequência da desvalorização do trabalho das parteiras. Em algumas ocasiões, por irresponsabilidades que acontecem nos próprios hospitais, existem casos de mulheres indígenas que ficaram com comprometimento no útero devido ao pessoal de atendimento ter deixado restos do processo de parto nos corpos das mulheres. 
 
Na primeira marcha das mulheres indígenas, organizada no ano passado, ao invés de pautar um único grupo de trabalho para discutir o fortalecimento da SESAI, nós mulheres indígenas nos reunimos e realizamos um manifesto dentro da SESAI em Brasília. Nós acreditamos que se não é o direito que garante a luta, é com muita luta que vamos garantir o direito. Apesar de sermos cinco por cento da humanidade, defendemos em torno de oitenta e dois por cento da biodiversidade do mundo. Se as pessoas não entendem a importância de cuidar dos povos indígenas agora, quem sobreviver esta crise vai ter que enfrentar uma segunda guerra viral da respiração devido à mudança climática. Nós já tínhamos conquistado uma grande importância nesta luta, mas se as pessoas não cuidam de nossos povos, terão que enfrentar as mudanças climáticas perdendo o maior balão de oxigênio do mundo, que somos nós, povos indígenas, que protegem a biodiversidade do planeta. Tem existido medidas de ação, como arrecadação de fundos, lançadas pela internet devido à falta de medidas de apoio direcionado para nossos povos. 
 
Neste momento estamos realizando um esforço não necessariamente contra o tempo, e sim pela retomada do tempo, porque o mundo não parou para ter tempo. O tempo parou com o mundo e a cura não somente se localiza na ciência e nas pesquisas de laboratórios, mas também na ativação de nossos princípios de vida.  Muitas pessoas se perguntam como vão fazer agora com seu trabalho, calendário escolar e como vão encarar tantas coisas que perderam, mas é importante entender que estamos num momento de retomada de valores. Talvez o 2021 será um ano em que comecemos a reinventar o que não foi vivenciado em 2020. Se as pessoas passarem por toda esta situação sem entender esta reflexão sobre uma mudança radical em nossos modos de vida, então não vão conseguir entender o que está acontecendo. Mais do que ficar em casa, na aldeia ou no território, a reflexão está em ficar na nossa primeira casa, que é o nosso corpo, para podermos refletir sobre o comportamento do nosso ser no mundo. 
 
É importante olhar para os territórios indígenas no enfrentamento à pandemia, pois nós não temos estruturas de laboratórios, testes, de materiais ou alimentação para combater este vírus. Não é somente a pandemia que mata, pois a fome, a ausência do estado, a colonização, e o agronegócio também matam e não temos como dizer, neste momento, qual destas violências está causando as mortes em nossos territórios. Somente sabemos que estas armas violentas matam com velocidades diferentes. 

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