Luta pelo acesso à terra na base dos confrontos | Land Portal

Os recentes confrontos no Estado de Plateau, centro da Nigéria, entre pastores e agricultores e que provocaram cerca de 200 mortos, foram apenas mais uma etapa de um conflito étnico antigo que tem como razão de ser a disputa desesperada pelo acesso a terras aráveis.

Esses recentes confrontos, que também tiveram uma componente religiosa, visto que a maioria dos agricultores são cristãos, enquanto os pastores são maioritariamente muçulmanos, estão a ser politicamente aproveitados pelos opositores ao Presidente Muhammadu Buhari para o acusarem pela espiral de violência que se instalou na Nigéria a um ano da realização de eleições.
 
Com as forças de segurança centradas na luta para conter as acções terroristas do grupo Boko Haram, a questão das disputas entre pastores e agricultores foi relegada para segundo plano, uma opção que agora se revelou ter sido erradamente tomada.
 
É que desde há cerca de 50 anos que são frequentes os ataques de pastores contra agricultores, numa luta para levarem o seu gado até pastos mais férteis. Primeiro esses ataques eram feitos com machados e catanas, mas agora já são usadas sofisticadas armas de fogo.
 
As autoridades, inicialmente, tentaram confinar os pastores a áreas previamente definidas de modo a evitar que eles invadissem fazendas legalmente constituídas em busca de água e de pastos férteis, sobretudo nas épocas mais secas.
 
Porém, com o tempo o número de pastores foi aumentando e a própria modernização do país criou vias de acesso mais fáceis de serem utilizadas, o que facilitou a movimentação para zonas fora do controlo das autoridades.
 
Desse modo, as distâncias também ficaram mais curtas, o que facilitou a criação de grandes comunidades de pastores que se foram aproximando das zonas agrícolas, quase sem se dar por isso.
 
O Governo, para responder a algumas das preocupações levantadas pelos pastores, decidiu criar 94 grandes ranchos em dez dos 36 Estados do país, de modo a acomodar o maior número de famílias em terras supostamente férteis e com fácil acesso à água.
 
Ao mesmo tempo, foi decidido criar nesses ranchos escolas e hospitais, num projecto global que custaria aos cofres do Estado qualquer coisa como 500 milhões de dólares.
Porém, quando chegou à fase de implementação, que coincidiu com o início da crise financeira no país motivada pelo drástico abaixamento no preço do petróleo, o plano sofreu profundas alterações.
 
Na mesma altura, começaram a surgir suspeitas da parte dos que estavam contra o plano de que se tratava de uma tentativa das elites nigerianas darem terras a populações muçulmanas com o dinheiro dos contribuintes, na sua maioria cristãos.
 
No meio das acusações voltou a surgir o nome de Muhammadu Buhari, um muçulmano, que estaria a favorecer os pastores à custa da entrega de terras integradas em áreas que eram de antigas famílias cristãs.
 
No essencial, as acusações apontavam que o Governo estava a usar dinheiro dos contribuintes para financiar o assentamento de pastores muçulmanos em zonas cristãs.
Alguns dos Estados, que faziam parte do plano de criação de ranchos, decidiram então desistir e recusaram-se a ceder terras, o que frustrou o que tinha sido inicialmente previsto.
 
Sem ranchos para o seu gado, os pastores foram forçados a movimentar-se de um lado para o outro na procura de água, um bem precioso que se encontra quase todo ele sob controlo de agricultores cristãos proprietários de numerosas fazendas comunitárias.
 
Originários do norte do país, muitos desses pastores percorrem com o seu gado milhares de quilómetros em direcção à região centro à procura de água, o que provoca, frequentemente, violentos confrontos com os proprietários das terras férteis, tal como sucedeu agora. Foi no mais recente caso de confrontos entre pastores e agricultores que se deram as referidas 200 mortes, num incidente que ninguém pode garantir que não se irá repetir, uma vez que nada do que o originou sofreu qualquer alteração.

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