Camponeses moçambicanos reinventam-se perante mudanças climáticas | Land Portal | Protegendo os direitos da terra através de dados abertos
Milhares de camponeses reinventaram-se nas práticas agrícolas para responder, em simultâneo, às mudanças climáticas e à pandemia de covid-19, sem baixar a produção em aldeias do interior de Manica, centro de Moçambique.
 
Aqui, garantir a segurança alimentar é crucial, porque a pobreza e implacável e a fome está à espreita.
 
Usam técnicas de conservação nos seus campos de cultivos, que incluem rotação de terras, gestão de culturas, compostagem e uso de pesticidas orgânicos, no âmbito dos conselhos ministrados para resistir às mudanças climáticas.
 
Agora, com um novo vírus a pôr o mundo de máscara, os camponeses reduziram os aglomerados nas hortas (machambas) e reorientaram-se para trabalhar em grupos menores, como medidas de prevenção da pandemia da doença respiratória covid-19.
 
"Antes trabalhávamos em grupos maiores, até 30 pessoas ao mesmo tempo na horta, mas hoje reduzimos para 10 ou oito. Para nos ajustarmos às recomendações do estado de emergência devido ao novo coronavírus" disse à Lusa, Zinha Mecânico, uma camponesa de Gôndola.
 
Ela faz parte da associação Fungaizano, uma palavra 'xhona' que literalmente significa "conceber ideias".
 
Um balde de plástico improvisado com torneira, com água e sabão, à entrada da horta coletiva anuncia o compromisso do grupo em manter a produção, mas cumprindo à risca as novas ordens de higiene e distanciamento social.
 
"Agora, antes de entrarmos para a horta, lavamos as mãos com cinza ou sabão e ao capinar ficamos separados a uma distância recomendada para prevenirmos essa nova doença" disse à Lusa, Rebeca Luís, outra camponesa de Gôndola.
 
A Fungaizano integra a rede de Escolas na Machamba do Camponês (EMC), uma iniciativa da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) que incorpora conhecimentos e práticas melhoradas para agricultura de sequeiro e que ajuda os camponeses - associados ou livres, em grupos de até 30 pessoas -, nas zonas rurais a produzir e a garantir segurança alimentar e nutricional.
 
A FAO está a recorrer à rede de 600 escolas, que abrangem mais de 18.000 camponeses em seis províncias do país, para transmitir as mensagens de prevenção da covid-19, garantindo em simultâneo a proteção dos camponeses e a produção de alimentos.
 
"À medida que o cenário se agravar, a FAO estará atenta para desenhar novas estratégias, para garantir que o trabalho não para no terreno" disse à Lusa, Roide Torres, coordenador da FAO no corredor da Beira.
 
O responsável assegura que a organização está a trabalhar na sensibilização dos camponeses para que "a produção não pare nos campos" devido à Covid-19 e por forma a que a pandemia não seja uma ameaça à produção alimentar no seio das comunidades rurais - observando as medidas de higiene.
 
Para a sensibilização, a FAO elaborou material como cartazes e um guião para as escolas na machamba do camponês e seus parceiros, que contemplam as recomendações de práticas preventivas.
 
Vários camponeses, sem capacidade de aquisição de máscaras, estão a ser aconselhados a usar lenços, tecidos tradicionais usados na cabeça das mulheres.
 
Neste cenário imposto pelo novo coronavírus, prosseguiu Roide Torres, a FAO vai centrar seu apoio na distribuição de sementes de hortícolas e cereais, para que a população tenha fonte de alimentos garantida para os próximos tempos.

 

Com o início da época fresca, a organização vai distribuir sementes de feijão para 55 mil famílias nas províncias de Manica, Sofala, Zambézia e Tete, além de reforçar os apoios, principalmente nas comunidades afetadas pelos ciclones Idai e Kenneth.

A nível global, segundo um balanço da agência de notícias AFP, a pandemia de covid-19 já provocou mais de 307 mil mortos e infetou mais de 4,5 milhões de pessoas em 196 países e territórios.

Mais de 1,6 milhões de doentes foram considerados curados.

Em África, há 2.630 mortos confirmados, com mais de 78 mil infetados em 54 países, segundo as estatísticas mais recentes sobre a pandemia naquele continente.

Entre os países africanos que têm o português como língua oficial, a Guiné-Bissau lidera em número de infeções (969 casos e quatro mortos), seguindo-se a Guiné Equatorial (522 casos e seis mortos), Cabo Verde (326 casos e duas mortes), São Tomé e Príncipe (240 casos e sete mortos), Moçambique (129 casos) e Angola (48 infetados e dois mortos).

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