“SE EU TENHO QUE DESPEJAR MEU SANGUE PELA PACHAMAMA” FLORENCIA SOLÍS DE JUJUY, ARGENTINA. | Land Portal

Entrevista realizada para o Movimento de Mulheres Indígenas pelo Bom Viver, Argentina.

Em abril desse ano, o Movimento de Mulheres Indígenas pelo Bom Viver organizou o Primeiro Parlamento de Mulheres Originárias das 36 Nações de Argentina em Ensenada, La Plata. Ao presente parlamento compareceram mulheres qom, mbya guaraní, collas, quechuas, mapuches, mapuches tehuelches, charrúas, zapotecas, chanas, tonocotes, pilagas, ranqueles y diaguitas calchaquíes.
 
Durante dois dias, as mulheres compartilharam as lutas que travam nos seus territórios, se uniram, se fortaleceram e se reconhecera, num mesmo espaço. O primeiro dia o diálogo e trabalho se deu entre irmãs indígenas e o segundo dia compartilharam com companheiras de diferentes organizações sociais e coletivos feministas. Alguns dos temas levantados foram a criminalização das mulheres que se encontram em processos de defesa dos seus territórios, o feminicídio indígena, a discriminação, racismo e a violência na migração para as cidades.
 
A presente entrevista é de uma mulher indígena colla, proveniente de Rinconadas, Jujuy no norte da Argentina. Nesse estado, suas paisagens e cultura estão atravessados pelos Andes e, atualmente muitos dos seus territórios estão sendo ameaçados e destruídos pelas mineiras transnacionais.
 
 
Florencia, ¿Onde você mora?
 
Eu moro na laguna de Pozuelos, Jujuy. Em um Parque Nacional declarado pela UNESCO, é uma reserva da biosfera onde tem uma variedade de aves, e animais como o flamingo, a aparina, o ganso andino, a gallareta, a gaviota. Além da fauna e da flora temos o suri, a avestruz; temos o lobo, o puma, a vicunha, a lhama, o guanaco. Temos a tola, que é um arbusto natural daí, temos a palha, o ciénego, a espinha e muitos matos medicinais que são muito bons e são daí, da Puna. Nós queremos defender porque ao redor disso, da cuenca de Pozuelos, há uma lagoa endorreica onde desembocam rios de diferentes lugares. Nessa região havia minas e não se fez nenhum saneamento, deixaram todos os dejetos com cianuro, com plomo, e os rios correm, e ao longo do tempo foram contaminando a lagoa. Muitas aves e arbustos desapareceram, acreditamos que por causa da contaminação.
 
Como a contaminação herdada da mina afetou vocês?
 
Nossos animais que tomam água aí perto morrem com doenças e é causa da contaminação, antes não acontecia isso. A grama já não é como antes, não crescem mais. Temos uns lindos olhinhos de vertentes de água mineral, de água doce que também estão desaparecendo.
 
O que está acontecendo agora?
 
Estamos lutando pela mina Chinchilla que estão a ponto de explodir na região de Rinconada, ao norte de Jujuy. O lugar se chama Piedra Negra, perto de Quiaca onde vão despejar as pessoas da sua terra, não vão ter onde pastar. Este governo de turno inclusive criou uma lei aberrante que é a Lei 5915, uma lei de servidão, de escravidão porque nos faz acreditar que criaram um parque solar de energia renovável.
 
Como estão se organizando?
 
Seguimos lutando de ponta a ponta do estado onde está se somando mais gente. Fazemos marchas, cortes de rodovias em lugares estratégicos como Abrapampa, que é um povo que está completamente contaminado com plomo no sangue pela mina Pan de Azúcar, uma mina que esteve vários anos ali, e com os dejetos contaminaram o povoado todo. As pessoas, muitas vezes, por medo não querem se manifestar porque tem ameaças, o governo vai e os ameaça ou vai em outro e o compra. Nós não dependemos de nenhuma instituição, nem de nenhuma parte do governo. Nós vivemos de nossa fazenda, do nosso gado. Somos independentes e autônomos, vivemos disso, da pecuária. Na fonte de Pozuelos é onde temos os pastos, a lhama, a vicunha. Tudo isso é pelo que brigamos porque não temos interesse de nos enfiar nas grandes cidades porque as cidades estão contaminadas. Por isso estamos lutando por ficarmos no nosso lugar de origem, e não vir a aglomerarmos na cidade. Nós temos onde viver, do que viver; o governo o que quer é enfiar-nos nas grandes cidades e que vivamos nos bairros periféricos e morramos de fome ou viver de planos sociais. Para assim colocar no campo as multinacionais e mineiras e dizer que é fonte de trabalho ou que vai haver um desenvolvimento, mas é mentira.
 
Natalia Colazo

Natalia Colazo para o "Movimiento de Mujeres Indígenas por el Buen Vivir".

 
O que se sente quando se pensa na puna, na montanha?
 
Para nós a água é fundamental, porque água é vida. Sobre tudo, a água é para a natureza e o mesmo ecossistema. A água é vital para a sociedade. Se aceitamos a minera sabemos que por dia gastam milhões de litros de água e vão nos deixar tudo seco. Ou seja, que a puna, que já é árida por si, se nos enfiam mina vão nos deixar tudo feito deserto, e não se poderá criar nem ovelha, nem lhama, nem vicunha. O slogan do governo é “o Jujuy Verde”, a quinoa, mas é mentira. Se nos enfiam minera não vamos ter água, como vamos poder semear a quinoa, sem água; é continuar morrendo. Por isso estamos em defesa, não queremos minera. Querem nos tirar daí e que nós vamos às cidades a mendigar.
 
Onde encontra forças para continuar defendendo seu território?
 
A força, é uma força inspiradora, que parece que a Pachamama ou o Deus me dão essas energias. A força está nos apus, nos morros. Nasci com essas energias e essa mentalidade. Tenho a companheira que por aí me disse, “Mas você está louca que quer que te atropele a caminhoneta mineira”, ou “Que venha a policia e te atropele”. Não, lhe digo, não há problema se tem que me violar me violará, se tem que me matar me matará; se tenho que despejar o meu sangue pela Pachamama, é porque é justamente o que tenho que defender: a mãe terra. Porque estamos afetando ao planeta que é como uma casa, e a essa casa há que manter limpinha todos os dias. Desgraçadamente, temos sujado, não tomamos consciência de que temos estragado tudo. O planeta está agonizando. Eu tenho que defender porque sou parte, é a minha casa que tenho que manter limpa, esses bosques, esses lagos, essas lagoas tudo tem que estar limpo. Isso me dá essa fortaleza de me parar na frente das caminhonetas, mas não tenho medo, não tenho medo. As vezes faço sozinha os cortes da rodovia, levo meu cartaz, me ponho aí e estou sozinha, quando ninguém me acompanha. Se tenho que despejar meu sangue por isso, despejo.
 
Leandro Matias


Leandro Matias para o "Movimiento de Mujeres Indígenas por el Buen Vivir".

 

O Parlamento onde se desenvolveu a entrevista foi vital para a construção da Campanha “Nos Queremos Pluri nacional” promovida pelo Movimento de Mulheres Indígenas pelo Bom Viver que busca que o Encontro Nacional de Mulheres mude o seu caráter “Nacional”por “Pluri nacional”. Essa mudança significaria que as mulheres indígenas sejam consideradas e sua participação seja transversal no Encontro Nacional de Mulheres. Ante os históricos genocídios e invisibilidade das populações indígenas desde a nação argentina, esta campanha se torna urgente para combater o racismo e alimentar as lutas feministas: pela livre determinação dos corpos, pela livre determinação dos territórios e pela livre determinação dos povos.

 
 

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