A realidade climática africana não é considerada na narrativa global | Land Portal
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ONU
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Portuguese

Foto: Angela Sevin/Flickr

Conselheira do secretário-geral da ONU para África, Cristina Duarte, fala sobre a importância de Cabo Verde em ações de enfrentamento à emergência climática; coberto 99,3% por água, o país africano de língua portuguesa é peça-chave nas discussões do continente sobre o tema.


O combate à mudança climática é uma questão de sobrevivência para um país como Cabo Verde. A declaração é da conselheira do secretário-geral para África, Cristina Duarte.

A nação de língua portuguesa, no oeste da África, tem 99,3% de seu território coberto por águas. Nessa entrevista à ONU News, durante a visita oficial do secretário-geral a Cabo Verde, ela afirmou que apesar de não contribuir para a mudança climática, a África como um todo, paga uma alta conta pela emergência do clima.

Linha de frente

“Como deve saber, a realidade africana, os desafios de desenvolvimento para África não têm sido devidamente considerados na narrativa global das mudanças climática. E como disse o secretário-geral, várias vezes nessa visita, os países desenvolvidos, industrializados é que são essencialmente responsáveis por esta situação. A África, como se sabe, todo o continente, a contribuição é 3.8% mais ou menos, então completamente marginal.”

Durante a visita oficial a Cabo Verde, António Guterres, chamou a atenção para a posição do país na linha de frente dos efeitos do aquecimento global e citou a seca que atravessou a nação lusófona nos últimos anos.

Acordo de Paris

O líder da ONU pediu mais solidariedade e ação dos países desenvolvidos para cumprir suas promessas com base no Acordo de Paris de destinar US$ 100 bilhões às nações em desenvolvimento para mitigar os efeitos da mudança climática.

A conselheira de António Guterres, Cristina Duarte, acredita que a África deve liderar o processo de transição para energias renováveis porque o continente já se encontra nesta situação. O que, segundo ela, ainda falta é o acesso à energia.

Pelo menos 600 milhões de africanos ainda vivem sem eletricidade. Para Duarte, a resposta está na geração de energia solar e eólica.

Mas ao se referir ao próprio país de nascimento, Cabo Verde, a conselheira de Guterres acredita que a energia azul é a melhor maneira de garantir resiliência, sustentabilidade e recursos econômicos para a nação a longo prazo.

“E, portanto, eu acho que a questão dos oceanos para Cabo Verde é uma questão de sobrevivência. Portanto a sua preservação, mas num contexto de geração ou de gestão de um recurso natural porque nós temos que tirar de lá o que Cabo Verde precisa para se desenvolver. Mas não esquecendo que para Cabo Verde é um recurso econômico.”

Cristina Duarte participou da delegação de António Guterres a Cabo Verde, onde o líder das Nações Unidas discursou na abertura da Cúpula do Oceano, em Mindelo.

Guterres também conheceu as instalações da Ocean Race, o desafio mundial de regatas que saiu de Alicante, na Espanha, e passou por Cabo Verde, em sua segunda etapa pelo Atlântico.

Leia na íntegra a entrevista de Cristina Duarte a Alexandre Soares, enviado especial a Cabo Verde:

 

ONU News: Qual é a importância para este arquipélago e para África do tema dos oceanos?

Cristina Duarte: O tema dos oceanos enquadra-se como é evidente num tema mais desafiante que é o tema das mudanças climáticas. Eu penso que está claro para todo mundo quem é responsável pelas mudanças climáticas, que são os países que produzem o CO2, e quem está a sofrer mais o resultado das mudanças climáticas. Todo mundo sabe. Infelizmente, esta realidade não é devidamente considerada no processo de formação. Primeiro, no processo de diálogo. E no processo de formação das narrativas globais. Como deve saber, a realidade africana, os desafios de desenvolvimento para África não têm sido devidamente considerados na narrativa global das mudanças climática. E como disse o secretário-geral, várias vezes nessa visita, os países desenvolvidos, industrializados é que são essencialmente responsáveis por esta situação. A África, como se sabe, todo o continente, a contribuição é 3.8% mais ou menos, então completamente marginal. E se excluirmos dois países, três, é 0.5%. Portanto, eu poderia dizer que África não precisa de fazer a transição porque já está lá. E eu não sei como transitar por uma posição que já estamos lá. Do ponto de vista físico, fica meio complicado. Então, o problema da África neste conversa energia-clima é o acesso à energia. África tem 600 milhões de pessoas sem eletricidade. África precisa de gerar, criar 18 milhões de postos de trabalho. Portanto, eu penso que cada país africano tem a legitimidade de encetar seu próprio planeamento energético, definir o seu próprio energy mix equacionando todas as suas fontes energéticas.  E como é evidente, para aqueles problemas, aqueles desafios que as energias renováveis colocam sobre a mesa as soluções ótimas, as soluções mais eficientes, eu acho que a África deve abraçar com força e deve liderar esse processo. Por exemplo, é inquestionável que levar eletricidade a 600 milhões de pessoas implica necessariamente levar energia. Para além de eletricidade. Não é só uma lâmpada na casa das pessoas. Levar energia para que essas famílias em aldeias remotas possam encontrar alternativas de rendimento familiar. É claro que as soluções das energias renováveis, portanto como energia solar e eólica etc, off-grid são as mais adaptadas. E neste aspecto, a África deve liderar. Agora, não coloquem a África num colete de forças dizendo que a solução para tudo aqui começa e aqui termina, em termos de energias renováveis porque não é assim. Porque, evidentemente, não é assim.

ON: E durante esta viagem, que desafios específicos e que soluções é que encontrou, que acha que são um exemplo par ao resto do continente?

CD: A problemática dos oceanos, como disse o doutor primeiro-ministro Ulisses Correia Silva, e disse muito bem, a problemática dos oceanos, no caso de Cabo Verde, é uma questão de sobrevivência. E como ele disse: Cabo Verde é, se não me falha a memória, 99.3% oceano. Eu até costumo, em determinadas conversas, dizer que nós somos capazes de sermos mais seres do mar do que seres da terra.

Eu tenho vindo a dizer isso nos últimos 10 anos. E, portanto, eu acho que a questão dos oceanos para Cabo Verde é uma questão de sobrevivência. Portanto a sua preservação, mas num contexto de geração ou de gestão de um recurso natural porque nós temos que tirar de lá o que Cabo Verde precisa para se desenvolver.

Mas não esquecendo que para Cabo Verde é um recurso econômico.

FIM


 

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